O cartão de crédito de Gusara Romero está chegando ao limite, e os altos pagamentos de juros deixaram sua família lutando para sobreviver.

No entanto, os preços altos no Brasil, atingidos pela inflação, deixam a mãe de 37 anos com pouca escolha quando chega à caixa registradora, diz ela: Muitas vezes ela quebra o plástico novamente.

Muitos trabalhadores no Brasil se viram presos em um ciclo vicioso de preços crescentes e dívidas crescentes, já que a maior economia da América Latina foi atingida pela alta inflação, altas taxas de juros e recessão.

Romero, que administra uma creche particular, mora com o marido e o filho na capital econômica de São Paulo.

Ela cortou seu trabalho em todos os lugares que podia, ela diz, mas ela mal conseguia pagar as contas.

“Compramos as marcas mais baratas, paramos de dirigir para o trabalho, não saímos mais”, disse ela à AFP.

No entanto, ela se viu obrigada a usar seu cartão de crédito, que tem uma taxa de juros anual de 346,1%.

“Sei que colocar as coisas no cartão torna tudo mais caro no final, mas não tenho escolha, o que me ajuda a passar por isso agora”, diz ela.

Os brasileiros voltam a ter um velho problema: a inflação, atualmente em 10,47% ao ano.

Os aumentos de preços são muito superiores aos de uma ampla gama de produtos, incluindo combustíveis (aumento de 50% de janeiro a novembro de 2021) e aves (aumento de 22,9%).

O caos na cadeia de suprimentos e os gastos com estímulos pandêmicos alimentaram a inflação em todo o mundo. Mas o Brasil, assombrado pela memória da hiperinflação dos anos 1980 e 1990, está passando por um ajuste particularmente doloroso.

Em um esforço para conter os preços, o banco central realizou uma das campanhas de aperto monetário mais agressivas do mundo, elevando a taxa básica de juros de 2% para 9,25% em menos de um ano.

Mas enquanto a inflação agora parece estar desacelerando, os aumentos das taxas tornaram o crédito mais caro no Brasil e frearam uma economia já lenta.

Efeito cascata

“Muitas famílias já estão gastando a maior parte de sua renda em pagamentos de juros”, diz Rachel De Sa, economista-chefe da corretora de investimentos Rico Investments.

Enquanto isso, a erosão do poder de compra erodiu o consumo das famílias, o principal motor da economia.

A alta inflação e os juros “sobretudo impactam o consumo de bens duráveis, como eletrodomésticos e veículos”, diz Fernanda Manzano, economista-chefe da TC Educação Financeira.

A recessão causada pela pandemia também está prejudicando a renda e a segurança do trabalho dos brasileiros.

A renda média real do Brasil, que controla a inflação, é a mais baixa desde que os registros começaram em 2012: R$ 2.449 (US$ 445) por mês.

O desemprego caiu de 14,9% no início do ano passado para 12,1%, mas mais de 40% dos trabalhadores brasileiros têm empregos no setor informal, geralmente sem contrato ou proteção social.

Isaac Coelho, entregador de bicicletas que mora em Embo das Artes, na zona oeste de São Paulo, é um desses trabalhadores.

“Pelo menos meu trabalho de entregador me permite cobrir algumas despesas, como uma lata de gasolina, que passou de 60 riais em 2020 para 100 riais hoje”, diz.

Crédito à habitação inacessível

Bruno, um operador de telecomunicações de 35 anos, mora na casa do pai na Lapa, em São Paulo, enquanto procura um apartamento que possa pagar.

“Meu banco me ofereceu um empréstimo com taxa de juros de 8,9%, mas essa taxa é válida apenas por três meses. Se eu não conseguir um apartamento até lá, não há garantia”, diz Bruno, que pediu para não ser identificado.

Os bancos ainda estão absorvendo o rápido aumento da taxa básica de juros, mas já “as taxas de empréstimos hipotecários passaram de 6,3% no início de 2021 para cerca de 10% hoje”, diz Rafael Scolidario, especialista em imóveis.

As perspectivas para a economia brasileira são sombrias para 2022, pressionando a já baixa popularidade do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro antes das eleições de outubro.

Analistas consultados pelo banco central esperam um crescimento econômico de 0,42% este ano, abaixo de uma previsão relativamente otimista de 2,5% um ano atrás.

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Por Luján Scarpinelli, AFP

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